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Artigos 23 de abril de 2011 As crenças manipulam as nossas escolhas |
A necessidade de se criar divindades Quando comparamos a evolução do macaco humano com as de outros mamíferos, ficamos boquiabertos com a sua capacidade adaptativa, seja nas mudanças anatômicas quanto comportamentais que fez para atingir o topo da cadeia alimentar. O homem-macaco desceu da segurança das árvores para a vida ameaçadora das planícies, estendeu a coluna, ampliou o cérebro, desenvolveu ferramentas, tornou-se caçador e construiu a cultura. Segundo alguns zoólogos, para conseguir uma vantagem evolutiva, o Homo cultus retardou a maturação cerebral, obrigando-se a permanecer para sempre com algumas características juvenis e mesmo infantis. Algumas delas foram a procura pelo risco e as necessidades de explorar, criar e inventar coisas novas, aspectos bem pronunciado nas crianças quando brincam. Ao crescer, o mamífero humano, para alimentar sua sede de explorar e experimentar, criou aquilo que conhecemos como civilização. Entre as suas invenções mais curiosas estão as divindades. Qual o motivo que o levou a construir uma realidade sobrenatural? E por que esta visão mítica se mantém, ainda nos dias de hoje, permeando a tecnologia, os negócios, as regras e leis, os valores morais, mesmo com o advindo da ciência? Poderemos um dia transcender esta visão para uma realidade sem crenças? Uma observação importante é conhecer a definição do verbete crer no dicionário: tomar por verdadeiro, ter por certo, ter confiança em (alguém ou algo); acreditar; formar idéia sem base real; imaginar, pensar, presumir. A palavra quase se antagoniza com outro verbo que é o saber, indicando que aquele que crê, em verdade não conhece, mas gostaria que o objeto de sua crença se transformasse em realidade. O surgimento das crenças nos deuses surgiu, provavelmente, da necessidade que nossa espécie sentiu desde sempre, de tentar entender o mundo fenomenal que o rodeava. No início, a tudo que nos cercava, que não compreendíamos, atribuíamos uma conotação mágica, fruto de uma imaginação sem limites, produto de nossa evolução cerebral, pois a ciência só surgiria milhares de anos depois para explicar os fenômenos naturais. A gestação, a morte, o nascimento, as mudanças climáticas, os acontecimentos cotidianos foram agregando um valor mítico, que comandava a vida dos antigos. Porém, a continuidade das crenças em divindades, através de milhares de anos de história civilizatória, teria uma explicação mais utilitária: a garantia da estabilidade dos grupos sociais. A concepção de entidades imortais, atreladas à atributos de potência inimaginável, e que, portanto, com poderes sobre a vida de simples mortais, levaria o ser humano a uma única condição possível. Há de resignar-se com o destino, sem questionar, aceitando aquilo que as divindades escolhessem, e com isso diminuindo os riscos de revolta social. Este sentimento de pequenez diante de forças invisíveis e indestrutíveis, gerou no homem um fatalismo, um determinismo existencial, um sentimento de destino inevitável, que perdura inconscientemente até hoje, moldando magicamente decisões diárias tomadas por bilhões de pessoas. - O que está por trás desta visão distorcida do destino, na qual entregamos nossas vidas nas mãos de potências invisíveis, intangíveis e incertas? Medo da responsabilidade A responsabilidade de ter de escolher. Gostamos de culpar Deus, o diabo e a sorte, mas somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos. Por isso, tanta gente prefere ser liderada a liderar. Todos os líderes, desde a pré-história, sempre tiveram que conviver com o ônus de ser responsáveis pelas conseqüências das decisões que tomaram. Mas, no âmbito do indivíduo, cada um é líder de si mesmo. Assumir o papel de líder implica em tomar resoluções cruciais diárias, que envolvem o seu futuro, o de outras pessoas e do mundo em que vive. O medo da responsabilidade está diretamente atrelado aos patamares de consciência, maiores ou menores, que este possui sobre a interação de centenas de variantes que tomam parte em qualquer eleição. Quanto mais conhecimento e experiência agregar, mais ajustadas e acertadas serão suas escolhas. Medo da perda Escolher sempre significará abrir mão de algumas coisas por outras, e tememos selecionar errado, perdendo algum outro objeto, momento ou situação que seria o melhor para nós. Cada vez que elegemos alguma coisa que presumimos ser a melhor escolha, abrimos mão de uma série de outras tantas. Uma parte de nós, eternamente infantil, detesta perder, e este sentimento pressiona nossa tomada de decisão. Uma das sensações que mais desagrada ao Homo cultus é o arrependimento, pois implicará no reconhecimento de sua incapacidade momentânea para ver com clareza uma determinada situação. As conseqüências de nossas escolhas Todas as vezes que escolhemos, trazemos à luz um grupo de situações que de outro modo não existiria. O exemplo clássico é o genético: quem seria você, se seus pais não tivessem permitido a gravidez que resultou no seu nascimento? Ou se a sua mãe tivesse escolhido casar com um outro homem que não fosse seu pai? Nossa visão sobre a maneira como as escolhas irão combinar-se com as possibilidades futuras é pequena, produzindo uma desconfortável ansiedade. Visão distorcida de quem somos nós Nossas escolhas são profundamente manipuladas pela autopercepção, ou seja, a concepção que o indivíduo tem de si, e esta é fruto de profundos e inconscientes valores, implantados através da educação. Educação é ajustar, condicionar a espécie, ativa e passivamente, às regras, normas e costumes de uma determinada época e lugar. Ela consecutivamente sacrifica todas as nossas tendências, predisposições e talentos inatos em prol da integração ao meio social. O lugar e época em que cada um de nós nasceu moldaram a maneira como entendemos o mundo e esta apreensão da realidade orienta continuamente as nossas escolhas, que constroem o nosso destino. Esta impressão particular do mundo forma, aparentemente, o componente mais profundo daquilo que se chama o que somos, mas é apenas parte do que temos. Inconsciente, esta configuração não é fruto das nossas próprias escolhas, mas representa apenas aquilo que desejavam para nós as pessoas que estiveram presentes na nossa formação. Esta foi construída segundo os valores e entendimento particular e distorcido da realidade dos formadores. A educação é sempre um processo de repressão da instintividade, como ferramenta de adaptação. No instinto, habitam energias muito poderosas e quase indomáveis. Por isso, no esforço de controlá-las, a educação acaba por produzir indivíduos ajustados, mas também temerosos, auto-restritivos, domesticados, onde em nome da estabilidade do grupo são sacrificados o impulso criativo e inovador e a curiosidade inata do homem-macaco |
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